30 de julho de 2015

Azar


Caminhava para casa, na berma da N109, enquanto os carros passavam por mim, em excesso de velocidade, de certeza, alguns a centímetros de me bater. Dentro de mim ardia um único pensamento: o que aconteceria se eu me arredasse um pouco mais da beira da estrada?
Sou cobarde, porque sei que não sou capaz de me atirar para o meio da mesma.

Esperava que alguém mais distraído não me visse e me colhesse por trás, que me rebentasse o crânio no para-brisas, que me abalroasse e me levasse.
E se não desse duas piruetas, não teria piada. 
E se não me despedaçasse, seria absurdo, se eu não voasse. Se não sentisse peso no corpo, como se flutuasse para sempre, sem consciência, sem pensamento. Se naquela fração de segundo eu me sentisse livre, despojado dos meus demónios, libertado de mim mesmo.
Se não me sentisse a planar como uma pena, então que sentisse o impacto violento e atroz do alcatrão, que sentisse todo o fardo e peso do meu passado e da minha consciência superar a gravidade e me esborrachar no tapete, me comprimir até desaparecer... 

Sei lá, (...) 



Cheguei a casa e ninguém se distraiu...
Foda-se.



24 de julho de 2015

Musa



Eu sei que adoras ler-me nas entrelinhas,
Porque só tu tens a chave para decifrar a verdadeira acepção de cada palavra que eu escrevo.

Frustração


Toda a gente se baba a olhar para ela, todos a gabam e constatam como é linda de morrer. Todos os dias é banhada por uma chuva de elogios e muitos não poupam palavras na hora de adjetivar o seu encanto. Porém, aquela pessoa que ela ama, aquela, cuja opinião mais importa e contamina a sua sagacidade visual, não a faz sentir de tal forma.

É fodido, como a indiferença de uma pessoa consegue anular o efeito que o entusiasmo de tantas outras provoca e fazê-la sentir, erradamente, que afinal não é tão bela como dizem... Que afinal não é nada de especial, quando é a rapariga mais deslumbrante e de tirar o fôlego que eu alguma vez tive o prazer de contemplar...


Como eu adorava que se pudesse ver através dos meus olhos... Através da minha mente.
Como eu adorava que se sentisse a miúda mais linda do mundo...
Já o é.
Só não o sabe.
Ainda.

É frustrante, na verdade...

20 de julho de 2015

Tu Destróis-me e Eu Escrevo...



Também é possível criar a partir da destruição.

Gosto do "eu" que me inventaste.

19 de julho de 2015

Não Me Toques

A minha pele fica entorpecida sempre que estás por perto, como se o meu corpo inteiro desesperasse por ser tocado.
O teu toque poderia ser considerado mágico.
Quando me tocas, eu sinto em todo o lado. Nos meus nervos e entranhas, sinto-te como arrepios que me percorrem de alto a baixo, eletricidade que viaja em cada veia e artéria do meu corpo, que me põe em pé todos os pelos e cabelos que tenho.
Onde quer que me toques, fazes-me tremer, sofro por antecipação e necessidade de te ter.
Sinto-te como uma chávena de chá, demasiado quente, demasiado cheia, que transborda e me queima da melhor maneira.
Queimas-me tanto as mãos que te querem segurar, como os lábios lhanos que, já sabendo discernir o sabor dos teus e já tendo decorado seus modos e manias, desesperam e anseiam por os beijar.


Então, pára de me tocar, porque enquanto o fizeres, serás meu cativeiro e prisão. Enquanto me tocares, estarei sujeito à tua dominação e te adularei.
Esse encontro quase fatal com a morte, que o teu afago mortífero me deu, quando me vi privado das tuas carícias mais sensuais, ao ponto em que a minha vivência se tornou contingente ao teu contacto hipnótico.
Por isso, agora, peço-te: acaba com este toca e foge.
Volta atrás nas tuas carícias, nos teus toques, empurrões, cotoveladas, beijos, abraços e satisfatórios arranhões.
Enquanto me coço pela ressaca que me dás, não me voltes a tocar. 
Se nos temos que ver livres um do outro, eu imploro-te que pares de me tocar, porque nunca paraste de o fazer desde o dia em que te conheci.


17 de julho de 2015

Hoje És Menos


Alguém que andava a ver se te esquecia
e a cuja memória, por isso mesmo,
regressavas como a melodia de uma canção da moda
que todos trauteiam sem querer,
ou como a frase de um anúncio ou um lema;
alguém assim, agora,
provavelmente
(seguramente) sem o saber,
começou, finalmente, a esquecer-te.
Hoje és menos.


Roberto Fernández Retamar

12 de julho de 2015

Cigarro



Escrevi o teu nome num cigarro, pensando que desaparecerias com o fumo. Agora estou viciado no sabor do teu nome e na forma como cada letra me preenche os pulmões.


Consome-me

O mundo é obcecado pelo amor, todos queremos amor, todos desejamos amar e ser amado. É comum pensar-se que carecemos de amor para nos sentirmos inteiros, como se estivéssemos destinados a alguém que será a nossa outra metade, que irá preencher a vacuidade que é a nossa vida oca e frívola.
Almejamos uma união platónica entre dois corpos, duas mentes, quiçá, duas almas, como sendo a máxima indiscutível da completude individual.

Irónico, é a plenitude pessoal de alguém subordinar-se à presença de outrem...
Parece-me estranho... Eu entendo precisamente o oposto. Nós estamos completos desde o início. Antes do amor somos absolutos. O amor surge para nos despedaçar, é ele que nos fratura e nos desmembra.
Depois do amor, do que era, antes, uma entidade singular, uma criatura cabal e impartível, sobra apenas um vulto fragmentado e incompleto.

Procedemos a secundar a proeza, só para nos vermos quebrar, mais uma vez. 
Alienar-nos a alguém, confiando que nos vá inteirar quando, na verdade, já somos inteiros, mas um inteiro mais pequeno, porque a cada pessoa que nos entregamos, perdemos metade de nós mesmos.

Nunca termina.
O amor não nos completa, o amor decompõe-nos, e não cessa até que nos consuma ao postremo fragmento da nossa essência.



11 de julho de 2015

"És Forte"


Soltei um sorriso. 
Um sorriso falso.
"Não conheço pessoa mais forte que tu."
Mal sabes tu...

Eu não sou forte,
Como todos me pintam,
Mas,
Já que é essa a minha imagem,
Vou viver através dela.
Na verdade sou fraco,
Mas ninguém adivinha.
Perco-me em pensamentos e cenários
Que me corroem,
De dentro para fora,
Como ácido.
Mas esse não me faz viajar,
Não me faz ver mundos novos
Em vez disso,
Destrói aquele em que vivo.
Mas não faz mal,
Eu sou forte.

10 de julho de 2015

Arrependes-te?


Para mim, quem diz que não se arrepende de nada na vida só tem um problema: não gostar de admitir que já errou, que nem sempre fez o que era correto, que já tomou decisões erradas, que já fez algo por impulso e deu merda. Que não sabia, que não podia adivinhar.

Pessoas que dizem que não se arrependem de nada, para mim, são estranhas. Porque ninguém é perfeito. E só sob uma capa de perfeição se pode gostar de tudo o que já se fez ou já se disse. 
O arrependimento é humano e saudável.

Aceitar os nossos erros é uma coisa, dizer que não os lamentamos é outra. Sentir arrependimento não é ficar a olhar para trás, desejando não ter feito as coisas de certa maneira, é sabermos que, se pudermos, se tivermos novamente a oportunidade, faremos de forma diferente. E negar isso é burrice, ou masoquismo.
E os masoquistas, para mim, são estranhos.

Doce Aroma


Poderia percorrer todas as perfumarias do mundo e nem assim encontrar aquela fragrância. 
Não foi só o perfume que me inebriou os sentidos, mas sim a combinação do mesmo com o cheiro dela, e esse não se vende em pequenos frascos pousados em prateleiras. Nenhum era como aquele, já que à medida que aproximava os frascos do nariz ia ficando cada vez mais embriagado pela mistura de fragrâncias que começaram a me enganar, tal e qual o efeito das misturas alcoólicas. São cheiros únicos, combinações perfeitas, que não resultam de outra forma. 

Será uma questão de pele? A pele é lixada, aguça-nos o sentidos, anestesia-nos, e deixa um rasto indecifrável. Posso até ficar a saber qual era o perfume que ela usava, posso compra-lo, cheira-lo vezes sem conta, que o máximo que conseguirei será apenas uma leve sensação de algo parecido.
Aquela fragrância exacta, só a sentirei se o acaso nos fizer cruzar novamente. 

Desencorajador? Talvez. A vida também é feita disto, de momentos e aromas perfeitos que não se repetem.

Para Sempre

Se for para sempre, nunca iremos contar os dias juntos.
Apenas as sobras entre os nossos morreres.
Apenas os dolorosos dias entre os nossos fins.
Sozinhos.
Se for para sempre, até que um de nós morra,
Os dias que se seguirão serão noites.
O Sol não mais nascerá.
O chão não mais será pisado.
O mar nunca mais será avistado.
A brisa nunca mais tocará a pele cansada.
Nos dias que se seguirão,
Que se esperam poucos,
A dor tomará conta dos órgãos vitais,
E consumi-los-á.
E os dias terão, finalmente, outro fim.

Até lá,
Enquanto os dias que ditarão os nossos fins não chegam,
Vive o nosso para sempre.
Conta os dias que faltam até morrermos.
Pensa na idade com que deveríamos morrer.
E pensa que deveríamos ser imortais.
E quantos dias vive um imortal?
E que amor não deveria viver para sempre?
Deixa este amor tomar-nos conta dos órgãos vitais,
E consumi-los.
Consumir-nos e tirar-nos os sentidos.
Cegar-nos.
Dar-nos a dor que, de tanto doer, sabemos que é amor.
E os dias terão, finalmente, outro sentido.
Porque se queremos ter o nosso para sempre,
Temos de nos entregar antes que os nossos dias,
Um dia,
Acabem.
E nós não sabemos quando esses dias vão chegar,
Mas sabemos que chegarão.
Então porquê perder dias a contar os dias,
Em vez de viver os dias como se amanhã um de nós já não os tivesse?


9 de julho de 2015

Onde Andas?

Tentei ligar... Não me atendeste.
Conduzi até aqui, mas não te encontrei.
Nao sei que caminho escolheste, nem onde estiveste,
Só espero que estejas segura. Por favor, que estejas bem.

8 de julho de 2015

Que Raiva!

Ainda os primeiros raios de sol estão a entrar pela janela e já toda a gente em casa começa a sua rotina diária para ir trabalhar. 
Eu, no entanto, ainda não preguei olho sequer.

Passo as noites com a cabeça a mil à hora, passei a noite contigo na cabeça. Não fosses tu a pessoa em que mais tenho pensado nos últimos tempos... "A pessoa"... Tu és tudo em que tenho pensado.
Em que é que penso? Se vale ou não a pena insistir... Se deva lutar por ti ou simplesmente deixar-te ir embora da minha vida.
Penso em formas de te ter de volta. Maneiras de te fazer ver o erro que estás a cometer. Bem, a meu ver é um erro.
Penso naquilo que eu posso fazer para voltar a beijar os teus lábios.
Penso em como te hei de fazer abrir os olhos antes que o inevitável aconteça, outra vez. Antes que acabes magoada...

O teu sorriso dá-me vida, e eu quero mantê-lo vivo, por ti e por mim. É minha prioridade fazer-te feliz, seja que de que forma for, sejas tu minha ou não. É estúpido dizer isso, não é? Quer dizer... É  fazer o trabalho de quem o devia estar a fazer... Mas não faz. Não como devia. Nao como mereces. Mas tu não te importas... Que raiva me dás sabendo que não recebes o amor que mereces, mas ainda assim te conformas com o que tens. Não procuras o melhor para ti... 

No final, quem sou eu para falar do que tu mereces quando, o que tu mereces, não é o que tu queres?


7 de julho de 2015

"Olha ali!"

Quando chegámos, a maré vazia deixava que a areia molhada mostrasse os tons de rosa e laranja que refletiam do céu.
Levámos um cobertor para a areia e ficámos ali, debaixo das estrelas a ouvir o mar, a conversar e a fumar o maço de Português amarelo que eu detestava, mas era o preferido dela.

Enquanto a pouca luz do sol que havia desaparecia, iam-se revelando mais e mais estrelas no céu e ficámos ali a ver constelações, estrelas cadentes, satélites, aviões, OVNIs, sei lá... O céu estava lindo, sem dúvida, mas ela... Nem tenho palavras para a descrever naquele momento... A beleza do céu mais estrelado que eu já tinha visto, não se equiparava à imagem dela, deitada ao meu lado a olhar o céu. Ela olhava para as estrelas e eu olhava para ela e sorria sem que ela percebesse.
Quanto mais ela falava sobre si, mais eu ficava fascinado por aquela rapariga.





   - "Está uma noite tão linda!" Sem tirar os olhos dela, respondi: "pois está." Voltei a sorrir.
Estava completamente apanhado por ela, perdido nela, hipnotizado por ela...

Eu tinha que a ter só para mim. Ela já me tinha falado também de alguns desgostos de amor e eu sabia que o coração dela ainda estava nas mãos de outra pessoa. Mesmo sabendo que era errado, queria chegar àqueles lábios, tinha que roubar esse coração e cuidar dele, o melhor possível.
"Olha ali!". Apontei para o nada. Assim que virou a cara beijei-lhe o pescoço, "golpe baixo...", não tardaria até os nossos lábios se encontrarem. 
Não deu para disfarçar mais, ela apanhou-me.

   - "Estás sempre a sorrir porquê, palerma?"
   - "Estou feliz."
   - "Porquê?"
   - "Não sei. Não perguntes."


Eu próprio não sabia porque estava assim... 
Estava a ficar frio... Ela tinha o meu casaco vestido, então sentei-me por trás dela e abracei-a.

   - "Que foi?"
   - "Nada. Estou feliz."
   - "Mas porquê?"
   - "Porque estou contigo, só isso."

Ficámos em silêncio a olhar para o mar, agora coberto por um nevoeiro que fazia notar cada raio de luz do Farol da Barra, a fumar mais um cigarro de Português amarelo. Já não se viam as estrelas, mas que me importavam as estrelas no céu quando a mais bela de todas estava nos meus braços?

Amnésia Imperativa

A história repete-se... Agora tenho a certeza que a felicidade, realmente nunca vem para durar. Começo a achar que não existe felicidade... Apenas momentos felizes.
Neste momento, tenho duas opções:
Esquecer a pessoa que me faz feliz ou esquecer os momentos felizes que ela me proporcionou... Se faz sentido? Nem por momentos... Não dá para escolher uma sem a outra, não é?



Como é que esqueço quem tantos sorrisos me dá, quem tão bem me faz e eu tanto amo, se guardo na memória todas as vezes que sorri por causa dela, todas as vezes que os nossos lábios de tocaram, os dias passados juntos, as noites igual. Como é que esqueço quem me deixou viciado no seu toque, na sua voz, até na forma como fuma os seus cigarros. 
Como é que esqueço tudo o que aconteceu desde a primeira noite, na praia...

Como é que esqueço todos os dias que estivemos juntos? Os cafés, as brincadeiras, as brigas e birras, as conversas, os desabafos, conselhos, os silêncios também, os beijos, os abraços. 
O conduzir com a minha mão na sua perna. Ou quando me despistei e quase bati na parede do túnel da Avenida, porque olhei para ela e o mundo desapareceu... Bem, a parede estava lá.
Como é que esqueço as noites que passámos juntos? O sair de carro sem destino e acabar a ver filmes com ela.
Como é que esqueço a manhã em que acordei ao lado dela?
Como é que me pode pedir isso?

Por outro lado, como é que esqueço todos esses momentos sem esquecer a pessoa com quem os passei?
O que nós conhecemos das pessoas, aprendemos através da convivência com elas... Se for apagar tudo o que passámos juntos, o que é que sobra? Um estranho, um desconhecido... Não quero ser um estranho, não quero que ela se torne uma desconhecida.
E como é que esqueço a pessoa sem esquecer o quanto a amo?
Vale a pena começar do zero, como se nada se tivesse passado? Como se os meus lábios nunca tivessem tocado os dela? Como se eu nunca a tivesse amado? Como se a fosse conhecer amanhã. É possível sequer?
Ou devo lutar para que tudo volte a ser como era? Lutar pelo amor dela... Sei lá.

Vale sempre a pena lutar por quem se ama, ou o melhor é deixar ir?

4 de julho de 2015

Breve Conselho



Já todos passámos, em algum momento da nossa vida, por uma situação em que não podemos retribuir o sentimento de alguém por nós. Alguém entra na nossa vida e, quando damos conta, está apaixonada, e... Simplesmente, não é mútuo.
Eu sou esse momento na vida de alguém.

O que eu vim cá dizer, hoje, é muito simples:
Quando se virem nessa situação e realmente não sentirem o que essa pessoa sente por vocês, não dêem esperanças. Não digam que ficam felizes com o "amo-te" dela. Não digam "também estou a começar a sentir" quando sabem que não estão. Não digam que estão felizes com a sua presença e que se pudessem ficavam com ela. Isso só vai atear mais o fogo. Só vai fazer com que se esforce mais, dê mais de si, como se já não estivesse a dar tudo o que tem... Só se vai queimar mais.

Uma ilusão, por mais maravilhosa que possa parecer, não passa disso e, quanto mais alguém se ilude, mais sofre com a desilusão.
Quando não têm intenção de realmente retribuir o sentimento, não finjam que o podem fazer.

Hoje, caí na desilusão.
Todos sabemos o que é amor não correspondido... Dói... É uma merda.
Principalmente quando a pessoa que amamos, ama uma pessoa diferente...
Ninguém precisa que essa dor seja maior, não alimentem o fogo.

fumAR-TE

Tínhamos estado a falar, durante o dia, sobre se a música deveria ou não ser paga e ela insistia que sim, porque musica é arte, e que a arte devia ser paga e valorizada.
Eu dizia que, arte devia ser para todos e, portanto, livre de ser apreciada por qualquer pessoa sem custos.

Depois de olhar para ela, horas mais tarde, a fumar o seu cigarro, é que percebi que eu não podia estar mais errado.

"Ficaste em silêncio, de repente. Em que é que estás a pensar?"
Nem estava a pensar... Bloqueei. Entrei num mundo à parte em que não existia absolutamente nada para além da sua figura. Um único som para além da sua voz.
Tudo perdeu foco menos ela. Ela e o seu cigarro. Ela fazendo os seus anéis de fumo em contraluz. Naquele momento, senti o mesmo êxtase, o mesmo "wow" de quem admira uma obra de arte.

Ela tinha razão... A arte deve ser paga. Tem que ser devidamente valorizada para ser apreciada como deve ser, e se eu não lhe der o valor que merece, perco o direito a admirá-la. Eu tenho todo o prazer em dar o valor merecido para poder admirar a arte que ela é.

Suicismo

Suicídio não é egoísmo. Também não lhe chamaria coragem. Um acto de fraqueza, talvez? Certamente, um último de desespero... 
Suicídio define o momento em que a dor psicológica excede a capacidade humana em aguentá-la. Representa o abandono da esperança. Mas, nunca egoísmo.

Egoísmo é não fazer nada para resgatar a pessoa enquanto está viva. Não querer saber dela para nada. Apenas que esteja lá como uma peça de mobília preenche um espaço vazio de uma sala. Um adereço na vida de alguém.
Está viva, mas não interessa. Está a sofrer, mas só ela sente. Se morresse doía a todos.
Ou fingiam todos...

Que grande egoísmo, realmente.
Alguém obrigar uma pessoa a viver uma vida de dor, infelicidade e ódio a si mesmo só porque gente que nunca se importou vai ficar "triste" e "com saudades"? "Pensa nas pessoas que vais cá deixar, nas que iam sofrer por partires." Assim só dói a uma e o resto não precisa de fingir nada. Isso é egoísmo!

Entende-se que, só depois de morta, é que essa pessoa iria ser tida em conta. Só aí alguém ia sentir falta, porque até agora teria sido uma constante. Tem estado lá, no canto da sala a preencher aquele espaço vazio que nunca ninguém olha, mas ao menos não está vazio.
Quase como uma casa abandonada, em ruínas durante anos, todos passam por ela mas só quando finalmente sucumbe ao chão é que reparam que até fazia falta.
De repente é estranho não a ver ali. Todos se admiram: "Que vergonha, alguém já podia ter restaurado aquilo antes de cair. Porque é que ninguém fez nada? É uma pena."




Ninguém tem saudades agora, enquanto a pessoa ainda está de pé? Ninguém sente falta enquanto ainda cá está?
E quanto às palavras hipócritas que todos dirão aquando do funeral: porque é que ninguém as diz enquanto a tal - afinal amada - pessoa ainda está viva? Porque ninguém quer saber.
Ninguém se interessa até ser tarde demais e o que fica por dizer não pode ser mais ouvido. 
Quem chora mais nessa competição fúnebre de lágrimas de crocodilo? Tristeza fingida em busca da pena alheia. Dezenas de biógrafos, cada um com a sua versão errada de quem foi o defunto enquanto vivia. "Nunca deu sinais de que alguma coisa estivesse errada." 
Sim... Tivesses tu querido saber. Tivesses tu perguntado, tentado falar enquanto ainda podias. Não que interessasse a alguém, provavelmente apenas ouviria um "está tudo bem".
Estava sempre.

Eu Só Queria As Migalhas

Será que alguma vez alguém se contentará com aquilo que sou e aquilo que tenho para dar? Dou de mim até o que não posso e peço tão pouco... No entanto, mesmo pedindo tão pouco, acabo por nunca ter o que quero. Vou dando partes de mim, pedaços grandes e não recebo migalhas de volta.
Assim me vou perdendo. Assim vou desaparecendo.

Já não tenho desejos ou esperanças de ser amado. Não minha cabeça já está bem assente a impossibilidade de tal acontecer outra vez.
"Outra vez"... Se alguma vez cheguei a ser amado.

Numa só pessoa fui encontrar tudo o que procurei em tantas outras... Tudo.
Cativas-me, fascinas-me, fazes-me querer descobrir-te, desejar-te e o principal: fazes-me sorrir como eu não sorria há tanto tempo. Fazes tudo isso sem saber sequer que o fazes, mas contigo eu era feliz. Tão feliz... Não posso perder isso.

Mas perdi... Perdi mais um bocado de mim... Voltei a perder a vontade de sorrir. Outra vez... Hoje desapareci um pouco mais.
Na verdade não perdi a vontade.... Eu quero sorrir, quero ser feliz. Quem não?
Mas como, se o meu sorriso nasce em ti?
Patético, não é? Não acredito em amor à primeira vista e, no entanto, dois dias foram o suficiente para eu sentir tanto por ti.

Eu sempre soube o que ia acontecer desde o início. Mesmo assim fui de cabeça... Parti o pescoço e agora estou no chão, não me mexo.
Não tenho sequer vontade de escrever... Dei a cabeça na almofada e deixei-me quase adormecer. Porra, nem assim estou seguro. Também dominas os meus sonhos. O que fazer então? Fico acordado? De que me vale se és tu que me ocupas também a cabeça? Não consigo fugir de ti. Não quero...


Faz-me falta beijar-te, fazem-me falta os teus lábios, o teu sorriso a rasgar o beijo, o teu abraço, a tua respiração ofegante, o teu toque, o teu riso.
Fazes-me falta, tu.
Eu preciso de ti, que sejas minha. Não peço muito, dá-me as tuas migalhas.