12 de julho de 2015

Consome-me

O mundo é obcecado pelo amor, todos queremos amor, todos desejamos amar e ser amado. É comum pensar-se que carecemos de amor para nos sentirmos inteiros, como se estivéssemos destinados a alguém que será a nossa outra metade, que irá preencher a vacuidade que é a nossa vida oca e frívola.
Almejamos uma união platónica entre dois corpos, duas mentes, quiçá, duas almas, como sendo a máxima indiscutível da completude individual.

Irónico, é a plenitude pessoal de alguém subordinar-se à presença de outrem...
Parece-me estranho... Eu entendo precisamente o oposto. Nós estamos completos desde o início. Antes do amor somos absolutos. O amor surge para nos despedaçar, é ele que nos fratura e nos desmembra.
Depois do amor, do que era, antes, uma entidade singular, uma criatura cabal e impartível, sobra apenas um vulto fragmentado e incompleto.

Procedemos a secundar a proeza, só para nos vermos quebrar, mais uma vez. 
Alienar-nos a alguém, confiando que nos vá inteirar quando, na verdade, já somos inteiros, mas um inteiro mais pequeno, porque a cada pessoa que nos entregamos, perdemos metade de nós mesmos.

Nunca termina.
O amor não nos completa, o amor decompõe-nos, e não cessa até que nos consuma ao postremo fragmento da nossa essência.



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