Caminhava para casa, na berma da N109, enquanto os carros passavam por mim, em excesso de velocidade, de certeza, alguns a centímetros de me bater. Dentro de mim ardia um único pensamento: o que aconteceria se eu me arredasse um pouco mais da beira da estrada?
Sou cobarde, porque sei que não sou capaz de me atirar para o meio da mesma.
Esperava que alguém mais distraído não me visse e me colhesse por trás, que me rebentasse o crânio no para-brisas, que me abalroasse e me levasse.
E se não desse duas piruetas, não teria piada.
E se não me despedaçasse, seria absurdo, se eu não voasse. Se não sentisse peso no corpo, como se flutuasse para sempre, sem consciência, sem pensamento. Se naquela fração de segundo eu me sentisse livre, despojado dos meus demónios, libertado de mim mesmo.
Se não me sentisse a planar como uma pena, então que sentisse o impacto violento e atroz do alcatrão, que sentisse todo o fardo e peso do meu passado e da minha consciência superar a gravidade e me esborrachar no tapete, me comprimir até desaparecer...
Sei lá, (...)
Cheguei a casa e ninguém se distraiu...
Foda-se.

Muito bom.
ResponderEliminarEscreves mesmo muito bem, parabens!
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